Bancos centrais movimentam reservas de ouro em meio a tensões globais
Banco central holandês afirmou ter tomado a medida para aumentar a preparação do país para situações de crise Crédito: Reprodução/NOS
O ouro voltou a ganhar espaço nas estratégias dos bancos centrais. O banco central holandês anunciou na quarta-feira (2) que transferiu 86 toneladas de suas reservas de ouro dos EUA e do Canadá para Londres afim de facilitar o acesso e a negociação do metal em uma 'eventual crise'. A iniciativa holandesa faz parte de um movimento mais amplo de revisão da localização das reservas de ouro por instituições monetárias ao redor do mundo.
O Banco da França retirou cerca de 129 toneladas de ouro do Federal Reserve de Nova York entre 2025 e 2026, concluindo uma estratégia que levou suas reservas a ficarem armazenadas em território francês. O país possui uma das maiores reservas oficiais de ouro do mundo, com cerca de 2.437 toneladas.
A Índia também reduziu de forma significativa a parcela do ouro mantida no exterior. Segundo levantamento publicado pelo Financial Times, o Reserve Bank of India tinha 22% de suas reservas de ouro fora do país em março de 2026, contra 55% em março de 2023. A instituição vinha, portanto, aumentando a quantidade do metal armazenada domesticamente.
Na China, o movimento tem uma característica diferente. O Banco Popular da China vem aumentando seus estoques de ouro e, nos últimos meses, passou a manter mais metal em Hong Kong, em uma estratégia relacionada ao esforço para fortalecer a cidade como centro internacional de negociação de ouro. A mudança ocorre paralelamente à sequência de compras de ouro pelo banco central chinês. Em julho de 2026, as reservas oficiais do país tiveram o maior aumento mensal desde outubro de 2023.
A movimentação não significa, porém, que todos os países estejam retirando suas reservas dos Estados Unidos ou do Reino Unido. A Alemanha, por exemplo, mantém uma parcela relevante do seu ouro em Nova York. O Bundesbank já havia repatriado centenas de toneladas para Frankfurt em uma operação iniciada na década passada, mas atualmente não indica uma nova retirada em massa do estoque mantido nos Estados Unidos.
Por que o ouro é importante para os bancos centrais?
O ouro ocupa uma posição particular nas reservas internacionais porque, diferentemente de títulos públicos ou moedas, não representa uma dívida de outro governo ou instituição. O metal também não depende diretamente da capacidade de pagamento de um emissor.
Por essas características, bancos centrais tratam o ouro como uma reserva de valor e um instrumento de proteção contra riscos extremos. O próprio banco central holandês (DNB) descreveu o metal como uma espécie de “âncora de confiança” e afirmou que ele é adequado para proteger contra riscos sistêmicos extremos.
A preocupação com a localização dos ativos ganhou força depois do congelamento das reservas internacionais da Rússia mantidas no exterior após a invasão da Ucrânia. O episódio mostrou que reservas financeiras mantidas fora do território de um país podem ficar sujeitas a sanções e restrições.
Nesse cenário, o ouro ganhou uma função estratégica adicional. A localização das barras passou a ser tão relevante quanto o tamanho da reserva, especialmente para países preocupados com possíveis crises financeiras ou geopolíticas.
A movimentação dos bancos centrais também ocorre em um período de forte demanda oficial pelo metal. As estratégias adotadas por Holanda, França, Índia e China mostram que não existe uma única resposta: enquanto alguns governos priorizam a repatriação, outros buscam diversificar os locais de armazenamento ou manter o ouro próximo dos grandes centros internacionais de negociação.
O resultado é uma mudança na maneira como o metal é administrado pelas autoridades monetárias. Décadas depois de o ouro ter deixado de ser a base direta do sistema monetário internacional, o metal continua sendo tratado como um dos ativos mais importantes para proteger as reservas de um país diante de cenários extremos.
E no Brasil?
No Brasil, o ouro também integra as reservas internacionais do Banco Central. Segundo o Relatório de Gestão das Reservas Internacionais, publicado em março de 2026, o metal representava 7,19% das reservas brasileiras em dezembro de 2025.
O BC afirma que, naquele ano, ampliou a diversificação da carteira diante do aumento das incertezas econômicas e geopolíticas, com o objetivo de reforçar aspectos de segurança e liquidez. O documento também informa que o ouro adquirido pelo banco para compor as reservas é negociado exclusivamente no exterior.
Fonte: Jornal Correio

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